quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Graciliano Ramos e a Educação


Ao relatar seus primeiros anos de vida em seu livro "Infância", Graciliano Ramos nos revela o ambiente rude, de violências constantes em que cresceu. O autor constrói a narrativa com fatos sobre os quais apresenta uma maior ou menor riqueza de detalhes, que variam na proporção das suas lembranças. E é justamente por se manter fiel às suas memórias, que em determinadas partes do livro não encontramos explicação para alguns acontecimentos. Nos parece, portanto, que a preocupação de Graciliano foi precisamente relatar as experiências que mais o marcaram, ainda que suas lembranças não permitissem contá-las em pormenores.
Dentre as muitas histórias contadas, podemos perceber que o processo de alfabetização e a experiência escolar do autor ocupam, junto com a família, um lugar central no livro. Não é à toa que uma de suas primeiras lembranças refere-se exatamente a uma sala de aula:
“A sala estava cheia de gente. Um velho de barbas longas dominava uma negra mesa, e diversos meninos, em bancos sem encosto seguravam folhas de papel e esgoelavam-se:
Um b com uma a – b,a: ba; um b com um e – b,e: be.
Assim por diante, até u. Em escolas primárias na roça ouvi cantarem a soletração de várias maneiras. Nenhuma como aquela, e a toada única, as letras e as pitombas convencem-me de que a sala, as árvores, transformadas em laranjeiras, os bancos, a mesa, o professor e os alunos existiram.“
Mais importante ainda do que perceber quais instituições tiveram importância na vida de Graciliano Ramos , é entender o de que forma elas se relacionavam com ele e que importância tiveram na sua formação.
As instituições eram, na tradição clássica, responsáveis pela “fabricação” de indivíduos e personalidades. A família, a igreja e a escola são certamente, as instituições que mais contribuíram para este processo (Dubet-1998). Em Infância, podemos realmente constatar o peso dessas três instituições na construção da subjetividade.
Ao assumirem para si a tarefa de construção de indivíduos, as instituições operam dentro de uma lógica que pressupõe que comportamentos que se enquadrem dentro de um padrão de normalidade. Aqueles que não se ajustam a esses enquadramentos estão sujeitos a fortes sanções. Na sua infância, Graciliano Ramos parecia ser uma criança que não se encaixava nos modelos pré-estabelecidos e por isso o seu processo de alfabetização foi bastante doloroso:
“ Um grosso volume escuro, cartonagem severa. Nas folhas delgadas, incontáveis, as letras fervilhavam, miúdas, e as ilustrações avultavam num papel brilhante como rasto de lesma ou catarro seco.
Principiei a leitura de má vontade. E logo emperrei na história de um menino vadio que, dirigindo-se à escola, se retardava a conversar com os passarinhos e recebia deles opiniões sisudas e bons conselhos.
- Passarinho, queres tu brincar comigo ?...
... Em seguida vinham outros irracionais, igualmente bem intencionados e bem falantes. Havia a moscazinha, que morava na parede de uma chaminé e voava à toa, desobedecendo às ordens maternas. Tanto voou que afinal caiu no fogo.”
Essas histórias, além de terem a função de servir como instrumentos de alfabetização, também tinham como objetivo incutir preceitos morais nos pequenos estudantes. Esse processo, no entanto, não é gratuito nem aleatório. Ele é, antes, fruto de um esforço concentrado para construir subjetividades.
Convém ressaltar que as instituições da modernidade, das quais, como já dissemos acima, a escola, a igreja e a famílias são as principais representantes operam segundo uma lógica bastante peculiar.
Michel Foucault (1974) vai descrever em A verdade e as formas jurídicas, o modo de funcionamento característico dessas instituições na modernidade, num modelo de organização que surge no fim do século XVIII e que ele vai definir como sociedade disciplinar. Esta pode, segundo Muchail (1985), ser definida como “ um modo de organizar o espaço, de controlar o tempo, de vigiar e registrar continuamente o indivíduo e sua conduta”.
Na sociedade disciplinar, o poder se exerce não somente por meio da repressão, mas pelo adestramento, pela produção de comportamentos e de indivíduos que devem agir conforme a “normalidade”. O panóptico é uma instituição que vai surgir como desdobramento da sociedade disciplinar e que, de certa forma, vai ajudar a defini-la. Por meio do panóptico, é possível vigiar, sem muito esforço, um louco, um doente ou um condenado, um estudante ou um operário. As instituições representadas por esses personagens (o hospício, o hospital, a prisão, a escola e a fábrica) vão ser em grande medida, atravessadas pela lógica disciplinar.
Graciliano Ramos, ao que tudo indica não se enquadrava nesse padrão de normalidade. Primeiro porque o processo de aprendizagem não lhe era nada prazeroso, mas também por uma resistência ao adestramento.
“Aos nove anos eu era quase analfabeto. E achava-me inferior aos Mota Lima, nossos vizinhos, muito inferior, construído de maneira diversa...
... O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam nos bancos, cinco horas de suplício, uma crucificação. Certo dia vi moscas na cara de um, roendo o canto do olho, entrando no olho. E o olho sem se mexer, como se o menino estivesse morto. Não há prisão pior que uma escola primária do interior. A imobilidade e a insensibilidade me aterraram. Abandonei os cadernos e as auréolas, não deixei que as moscas me comessem. Assim, aos nove anos ainda não sabia ler.“ (pg. 168)
De acordo com Bohoslavsky, muitas vezes chamamos de educação o que não passa de adestramento e o aluno, à medida em que aprende, aprende a aprender de uma determinada forma. O que fez que com que o autor de Infância se tornasse um aluno medíocre foi, dentre outras coisas, uma recusa a aprender a aprender de um jeito que os professores achavam conveniente. Durante a maior parte de sua vida escolar, a estrutura das instituições de ensino o fizeram se sentir um aluno incapaz, inferior aos outros. Isso acontecia ainda que ele, muito acertadamente, achasse aqueles conhecimentos extremamente enfadonhos e sem sentido. Por esse motivo a experiência escolar de Graciliano foi extremamente violenta. Não só do ponto de vista físico, embora palmatória e puxões de orelha estivessem sempre presentes.
A tarefa de educar pode ter duas fontes possíveis de agressão, ainda de acordo com Bohoslavsky. Primeiramente, porque o próprio vínculo que se estabelece na relação professor-aluno se dá por meios violentos. A dependência que caracteriza esta ligação tem como eixo central a troca de segurança por submissão. Os alunos, para conseguirem passar sem tantos traumas pela escola tem que submeter-se ao professor e à instituição. O outro aspecto agressivo do processo de aprendizagem é que ele promove uma reestruturação , que ocorre tanto no nível dos conhecimentos como no das relações que os indivíduos estabelecem com esses conhecimentos.
É interessante notar que embora aos nove anos ainda não soubesse ler direito, Graciliano Ramos se torna pouco tempo depois um apaixonado pela leitura. A relação que ele se estabelece entre ele e os livros, no entanto é totalmente diversa daquela da escola:
Apareceu uma dificuldade, insolúvel durante meses. Como adquirir livros?...
... Invoquei, num desespero, o socorro de Emília. Eu precisava ler, não os compêndios escolares, insossos, mas aventuras, justiça, amor, vinganças, coisas até então desconhecidas. (pg. 189).
Num outro trecho do livro, o autor nos mostra os progressos que tivera a partir do momento em que tomou gosto pela leitura:
“ Um dia, porém, houve exame imprevisto e os alunos encrencaram nos rios e nas capitais...
... Mencionei o bosque de Bolonha, Versalhes, o Sena, a torre de Londres, as pontes de Veneza, o Reno e o Tibre, o porto de Marselha. Não era exatamente o que desejavam. Em todo o caso fui ouvido.
...Finda a novidade, os meus conhecimentos originaram desconfiança e algum desdém...
..Descurei as obrigações da escola e os deveres que me impunham na loja. Algumas disciplinas, porém, me ajudavam a compreensão do romance e tolerei-as – bocejei e cochilei buscando penetrá-las. (pg. 192)
Embora a leitura tenha proporcionado uma melhora significativa no desempenho do nosso protagonista, os seus conhecimentos ainda originavam desconfiança e desdém. E isso ocorria justamente porque a forma de aquisição desses saberes não passava pelo filtro escolar e pelo seu modo de funcionamento. Na verdade, podemos nos arriscar a dizer que o gosto de Graciliano pela leitura, e até mesmo o fato de ele ter se tornado um dos maiores escritores brasileiros, foi de certa forma um efeito colateral de sua experiência escolar.
É evidente por outro lado, que conquanto as tentativas de seus familiares de alfabetizá-lo tenham sido extremamente incômodas e violentas, o fato de pertencer a uma família em que valorizava a educação teve peso fundamental na formação do autor.
Ora, uma noite, depois do café, meu pai me mandou buscar um livro que deixara na cabeceira da cama...
Meu pai determinou que principiasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando uma cantilena medonha, indiferente à pontuação, saltando linhas e repisando linhas, alcancei o fim da página, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a arrastar-me na gemedeira, como um carro em estrada cheia de buracos...
... Explicou-me que se tratava de uma história, um romance, exigiu atenção e resumiu a parte já lida. Traduziu-me em linguagem de cozinha diversas expressões literárias. Animei-me a parolar. Sim, realmente havia alguma coisa no livro, mas era difícil conhecer tudo. (pg.170)
Nos trechos seguintes do livro, lemos que a paciência do pai de Graciliano para lhe exercitar a leitura durou pouco. De qualquer forma, foi esta disposição em traduzir em linguagem de cozinha diversas expressões literárias que fez com que sua visão a respeito da leitura se modificasse e que esta pudesse ser vista como uma atividade prazerosa.
O peso da família determina em grande parte o tipo de atitude que os indivíduos terão frente à escola.
A vantagem mais importante que as crianças dos meios mais favorecidos podem ter em relação às demais é a ajuda direta que os seus pais podem dar, segundo Bourdieu (2001).
Assim, podemos dizer que apesar de todos os problemas relatados em Infância e da dureza do aprendizado e do processo de alfabetização de seu autor, é notório que o fato da leitura ser um hábito em seu meio familiar, contribuiu para que, em algum momento, fosse despertado o gosto por esta atividade. De acordo com Dubet (1998), determinados alunos, que não percebem qual a utilidade de seus estudos canalizam sua inteligência e personalidade para atividades não escolares. Quando isso ocorre, os indivíduos se formam paralelamente à escola e se adequam à vida escolar não se integrando. Parece ser esse o caso de Graciliano Ramos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AZANHA, José Mario Pires. Uma reflexão sobre a Didática. 3º seminário A Didática em questão. Atas, vol. 1, 1985, p. 24-32.
TARDIF, Maurice et al. Os professores face ao saber: esboço de uma problemática do saber docente. Teoria e Educação. Porto Alegre, 1991, nº 4 . p. 215-233
BOURDIEU, Pierre. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura. In: Nogueira, Maria Alice e CATANI, Afrânio. Escritos de educação. 3ª edição. Petrópolis, RJ. Vozes, 2001 , p. 39-64
DUBET, F. A .formação dos indivíduos: a desinstitucionalização. Contemporaneidade e Educação, v.3 p. 27-33.
VEIGA-NETO, A. “Pensar a escola como uma instituição que pelo menos garanta a manutenção das conquistas fundamentais da modernidade”. In: Costa, M.V.( org) A escola tem futuro ? Rio de Janeiro: DP&A, p. 103-126
FOUCAULT, M. (2002) A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Nau, p. 7-27 e 103-126.
MUCHAIL, S. T. (1985) “ O lugar das instituições na sociedade disciplinar”. In: Ribeiro, R.J ( organizador). Recordar Foucault. Rio de Janeiro: Brasiliense, p. 196-208.
BOHOSLAVSKY, Rodolfo. A psicopatologia do vínculo professor-aluno: o professor como agente socializador. PATTO. M. Helena de S. Introdução à Psicologia Escolar. São Paulo: T. A Queiroz. Ed. 1991, p. 320-341





Nenhum comentário: